Só uma lembrancinha (conto de Natal)

Em 1997, estava eu, o Luís Oliveira Martins, a Paula Santos, a Cláudia Novais e o Paulo Hasse Paixão no curso da Aula do Risco no curso de escrita criativa, resolvemos fazer, cada um de nós, uma história de Natal para o Miguel Viterbo, nosso professor no primeiro semestre (no segundo viria João Louro). Com saudades desses tempos, deixo aqui a minha...

A madrinha há-de desculpar, que é coisa pouca, só uma lembracinha lá da terra. Ora, não é nada muita fruta, olha só o disparate, madrinha, é para os meninos, que eu bem sei que eles gostam, já estão crescidos, os meus meninos. Lá na terra toda a gente os conhece, que eu tenho tanto orgulho nos meus meninos. Conto tantas histórias dos meus meninos, madrinha, meu Deus, que até aquele gente se enche toda de inveja. Pois, eu sei que já estão uns homens, mas o que é que a madrinha quer?, fui eu que os criei, quer-se dizer, foi a madrinha, mas eu estava cá o resto do dia, sempre a tratar dos meus meninos, tão malandros mas tão lindos. Já vai para três anos que não os vejo, mas há-de ser qualquer dia. A madrinha desculpe a lembrancinha, ora muito nada!, é uma frutinha para as festas, que eu sei que a madrinha tem cá sempre tanta gente em casa. Ainda m’alembra os copos de cristal a brilhar nas minhas mãos, e eu com medo de os partir, que noites de Natal como as de cá nunca vi, com tanta gente, tanta fartança, tanta prenda. E os meninos também vêm cá? Ah, agora tem que ser um ano em cada lado, já se sabe, pois é, a família vai crescendo, mas boa gente, não é?, a madrinha acha que casaram bem? Ai, Deus queira, os meus meninos. É uma pena ainda não terem netinhos, a madrinha e o senhor doutor haviam de gostar, mas é, pois, têm tempo. Já não há Marias para tomar conta, isso é verdade, não estivesse eu tão entrevada deste braço e ia eu lá para casa para tomar conta dos bebés, havia a madrinha de ver como eu ainda me ajeito. Isto do braço?, eu não contei à madrinha? Pois foi no Natal do outro ano, a madrinha alembra-se que eu vim cá com o meu Alcides e vamos a voltar para casa e toca o carro de se ficar na subida da serra, a madrinha está a ver aquela subida, onde até há uma casa de desavergonhadas ali perto da estrada, a madrinha não reparou, pois, gente de bem não repara nestas coisas, mas estão lá que é uma pouca-vergonha, mas ia eu a contar que se nos ficou o carro na subida e nada de pegar, o Alcides todo arreliado e eu que tenho medo que se lhe arrebente o coração, que o doutor disse que ele não se podia enervar, e nada de andar, o raio do carro já não se mexeu mais e nós tivemos de ir às desavergonhadas pedir para telefonar e elas ainda se meteram com o Alcides, a fazerem-lhe festas nas costas para o acalmar. O Alcides disse-me para eu ir para o carro esperar pelo meu cunhado, o que é mecânico, a madrinha alembra-se, que ele nos havia de vir desenrascar e eu já a ver os olhos do Alcides a fugir para os decotes e a pensar que ainda era pior, que se lhe arrebentava ali mesmo o coração, e quem foi para o carro foi ele, que eu não podia com o frio, que quando me dá na espinha fico tolhidinha de todo. E não é que começa aquele nevão, que a madrinha sabe que lá na serra aquilo é nevar até fartar, e o meu Alcides volta para casa das desavergonhadas e diz que não pode ficar ali fora, e eu a ver os olhos delas a cobiçá-lo, que aquela gente já nem é pelo dinheiro, é pelo vício de andar sempre naquilo, e o Alcides a ligar para o meu cunhado e a ligação a cair e eu a pensar que ainda ali ficávamos, e o tempo a passar e elas de roda de nós com aquelas roupas que não tapam o que devem e o Alcides com calores. Ai, madrinha, aquilo ainda era pior que o Natal lá da terra, com a minha cunhada aos gritos, muito grita aquela mulher, os catraios todos aos pinotes, aquelas comidas todas mais os sonhos da tia Almerinda, que o senhor doutor uma vez até lhes chamou pesadelos, de tão rijos que lhe saem, a madrinha alembra-se, não?, foi quando lá forma há já muito ano. Mas ele é discussões que começam sempre sem ligar ao Natal, que os irmãos do Alcides, sobretudo o Eleutério, são bocarras abertas para despachar parvoíces, ele é as minha cunhadas que ajudam sempre à confusão, que a única com quem me dou é a irmã do Alcides, aquela que a madrinha conheceu no outro ano, aquela que veio ao senhor doutor para se tratar de umas enxaquecas, mas essa é a única com quem falo assim a modos que bem, que os outros é só por dizer que se passa o Natal em família, porque s’atura. Este meu cunhado mecânico é o marido dessa minha cunhada que eu estava a falar e até é boa gente, os miúdos são pacatos e andam sempre asseados, não é como os outro que parecem uns maltrapilhos. E se aquela gente tem dinheiro, que é só estátuas a cuspir água nos lagos dos jardins e telhados pretos só para mostrar que são diferentes, que ali na terra só eles é que têm, que a madrinha havia de ver como são gente de pouca importância. Madrinha? O braço? Pois eu ia a contar à madrinha que o nevão caiu com força e tapou tudo e ouvimos pela rádio das desavergonhadas que os acessos à serra estavam todos cortados e eu percebi logo que a noite de Natal ia ser mesmo ali, com aquelas, e o meu Alcides a achar graça àquele arraial todo e elas a prepararem a ceia sempre meio despidas, que até se lhes via a combinação pelo decote, muito divertidas de terem mais alguém com elas, que eu até tive pena que não tivessem família, porque aquela gente há-de ter a porta de casa fechada, a madrinha não acha? E até acabei por dar uma ajuda, já que tinha de ser, que elas iam-me a cozer o bacalhau com as couves e as batatas tudo junto, vê-se bem que não sabem nada destas coisas, e ainda fiz uns sonhos e umas rabanadas com elas a darem-me beijos na cara e chamarem-me querida e fofa, e eu de olho no Alcides, não fosse levarem-no a provar outras coisas, que ele estava tão aparvalhado que até ia sem perceber, que ele é honesto, nem percebe bem estas coisas e eu tinha que o resguardar. Madrinha? O braço, pois, o braço foi no dia seguinte, que acabámos por lá dormir, que nos emprestaram umas roupas, a madrinha havia de ver o Alcides a dormir com um pijama delas, e eu, claro, também, mas não preguei olho, não fosse o Alcides sair sonâmbulo do quarto, que ele nunca foi mas naquela noite levantou-se tantas vezes que me deu uma trabalheira. Mas ia eu a dizer que no dia 25 já diziam na rádio que se podia circular e telefonámos outra vez para o meu cunhado, que estava muito mal disposto porque o Natal sem nós tinha sido bem pior que os outros, já se vê, sem nós que somos os únicos com quem eles se dão melhor, e ele disse que lá vinha, e foi então que íamos a tirar a neve à pazada, com as meninas a ajudar, que eu escorreguei e parti um braço, no dia de Natal, veja a madrinha, eu que nunca parti nada e fui logo partir no dia de Natal, e elas de roda de mim que não podia com as dores. Foi eu a partir o braço e o meu cunhado a chegar e a levar-me ao hospital sem tratar do carro, que o Alcides não queria deixar ali o carro que o roubavam, roubam como, homem, pois se ele não anda, e lá ficou dentro do carro a tomar conta e eu com o meu cunhada a ir pôr uma pala de gesso, tala?, pois, e a voltar a meio da tarde, tinha o Alcides ido lá dentro, à casa das desavergonhadas, telefonar para saber de mim, para onde é que eu não sei, e eu cheiinha de dores que nunca mais fiquei boa, ainda me custa muito pegar em pesos, e o Alcides a dizer que tinha sido o melhor Natal da vida dele, e eu magoada do braço e com ele. A madrinha havia de ver as meninas a dizerem-nos adeus da porta, todas meias despidas que nem o frio as faz tapar, e lá voltámos para a terra, mas escapámos ao Natal, que não é como o da madrinha, com os cristais e aquela alegria toda. Gostava de ver outra vez os meninos, ai isso gostava, pois, talvez doutra vez, mas fosse isto do braço, quem tratava dos netinhos da madrinha era eu, que ainda me ajeito, madrinha, ainda sei tratar de meninos como dantes. Não fale mais da fruta, madrinha, que é só uma lembracinha lá da terra, é coisa pouca.
Publicado em Jogging para Escribas, Fenda, 1998

7 comentários:

Anónimo disse...

Muito bom! Farteime de rir com as (des)venturas do Alcides!

Margarida Fonseca Santos disse...

:)Obrigada... Um abraço

Eugénia Edviges disse...

Bonito texto e, ao mesmo tempo, triste.

Eugénia Edviges disse...

uomthat

Margarida Fonseca Santos disse...

Pois foi... Um grande beijinho!

Rosa Carioca disse...

FESTAS FELIZES!

Margarida Fonseca Santos disse...

Obrigada, para si também!
Um grande beijinho