Apresentação de "Uma Questão de Azul-Escuro"


Aqui vos deixo a apresentação que a minha querida amiga Mª Teresa Maia Gonzalez fez do livro: «UMA QUESTÃO DE AZUL-ESCURO» - Obrigada, Teresa!

Sendo a cor do céu (daquele que é visível aos olhos humanos), o azul deste livro de Margarida Fonseca Santos nada tem de celestial… É, como o próprio título expressa, um «azul-escuro», porque carregado de dor (da mais pesada, pelo facto de ser oculta, não partilhada); é a cor da angústia (do grito abafado no mais fundo da alma); é a cor do medo.
«UMA QUESTÃO DE AZUL-ESCURO» é um título feliz para um livro que fala da infelicidade que resulta da humilhação, da agressão imprevisível e covarde, enfim, da violência contra um ser indefeso.
«UMA QUESTÃO DE AZUL-ESCURO» é, pois, uma questão séria, que a Autora levanta, muito oportunamente, ao leitor de todas as idades, a cada um de nós.
As agressões de que as crianças e os adolescentes são alvo são, provavelmente, tão antigas como a história desta humanidade a que pertencemos, tão cheia de desumanidades e outros paradoxos.
Atualmente, através dos meios de comunicação social, chegam-nos, dia após dia, notícias profundamente inquietantes, vindas de todas as partes deste «planeta azul» que habitamos e cujas tonalidades de azul são, quase sempre e apenas, consequência da predominância de água: a água dos mares e oceanos, dos rios e lagos e… das lágrimas de adultos, jovens e crianças como o Luís, o menino que encontramos neste livro.
A história do Luís que dá vida às páginas deste livro é, em certa medida, a história de todos os que já fomos desrespeitados, assaltados, maltratados, humilhados - num parque, jardim ou rua da cidade; numa estação ferroviária, no recreio de uma escola…
O Luís a que Margarida Fonseca Santos deu alma é uma voz à procura de quem a oiça, mas, por ser uma «voz silenciosa», só um coração atento e sensível poderá escutá-la. Aqui, entra o papel do adulto, neste caso concreto, a professora do Luís, que se aproxima, se interessa e compreende a urgência de agir, não já para reparar os danos causados, mas para que não se repitam.
Na verdade, a professora do Luís é o modelo que, certamente, todos gostaríamos de ver seguir por parte de todos os que são especialmente responsáveis pelo acompanhamento e a educação das crianças e dos jovens. Numa primeira fase da sua atuação, ela aproxima-se e, com delicadeza, procura inteirar-se da razão do desconforto visível no seu aluno. Depois, toma a atitude inteligente de partilhar com o menino um caso acontecido com ela, para o deixar mais à vontade e para lhe fazer sentir que a sua dor não lhe é alheia, não lhe é, de todo, estranha. Em seguida, toma a decisão responsável de fazer tudo o que está ao seu alcance para proteger aquele e os outros alunos que estão ao seu cuidado, envolvendo, também, outros parceiros com responsabilidades na formação e proteção de menores. E fá-lo sem perder tempo, porque bem sabe como, a cada dia que passa, a dor dos maus tratos vai criando raízes mais fundas no íntimo de cada vítima, com consequências imprevisíveis e sempre graves.
Não é, portanto, de estranhar que esta professora me tenha feito lembrar a personagem bíblica do «Bom Samaritano», aquele que, de facto, sabe que amar o próximo é, em primeiro lugar, «fazer-se próximo», aproximar-se! É recusar ficar indiferente, num comodismo que destrói qualquer hipótese de progresso ou solução; num egoísmo que não mata, mas deixa morrer!
Ao ler este livro tão importante, não pude, igualmente, deixar de pensar em tantas crianças cuja voz ainda ninguém ouviu… Algumas dessas crianças têm já 30, 40, 50, 60 anos… E vivem escondidas bem no fundo da alma desses adultos que não encontraram força nem apoio para se libertarem da sua dor passada mas presente. Na realidade, nunca se aproximou delas um adulto atento, sensível e responsável, como a professora do Luís. Na realidade, ninguém se deu ao trabalho de sondar as suas almas dominadas pelo medo e pela ansiedade; ninguém se dispôs a observar as «nódoas negras» e a sombra que se esconde nos olhos de quem passa discretamente, muito discretamente, por esta vida, com medo até de respirar.

A escrita de Margarida Fonseca Santos é, desde o primeiro livro, pautada por um profundo sentido de humanidade. A sua sensibilidade – reconhecida já por muitos leitores, críticos e «colegas de ofício» – fá-la estar desperta para tudo o que vai minando a vida humana, vocacionada, afinal, para a felicidade. Por esta razão, nas linhas dos seus livros, encontramos, frequentemente, gritos de alerta (ainda que, muitas vezes, camuflados) e pistas para resolver problemas concretos que afligem tanto os mais novos como os mais velhos. É, pois, natural que o seu trabalho tenha já dado muitos frutos.
Por isso aqui estou para, pessoalmente e de viva voz, vos recomendar hoje a leitura deste «UMA QUESTÃO DE AZUL-ESCURO», que me tocou profundamente.
As ilustrações de Sandra Serra – de tão expressivas – concorrem também, notavelmente, para sublinhar as emoções e os sentimentos que nele fervilham.
Permitam que vos convide a lê-lo e a divulgá-lo, juntos dos mais velhos e dos mais novos! Verão que esse gesto também dará os seus frutos! (Há muito que acredito que a semente que foi lançada tem sempre mais hipóteses do que aquela que ninguém semeou…)

Termino, felicitando vivamente a Margarida Fonseca Santos por ter escrito este livro.
Parabéns, também, à Ilustradora!
Felicito, ainda, a Gailivro, que o publicou.
Sinto-me honrada pela oportunidade de o apresentar.
Bem hajas, Margarida, por teres tido a generosidade do mo dedicares! Acredita que o levo no coração, para onde for.

Maria Teresa Maia Gonzalez

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