Popota na Escola

O desafio foi gigantesco: contar uma parte da infância da Popota...
Comigo, o Paulo Galindro, num primeiro trabalho conjunto que adorei!
Acho que conseguimos contar uma história onde amizade, solidariedade, inclusão, gestão de conflitos e arte se juntam. 
Já anda por aí, podem espreitar. Eu estou mesmo muito feliz com o resultado final. Espero que gostem!
Um agradecimento especial à Booktailors e à SONAE.


Gabi

– Precisa de mais alguma coisa, minha senhora?
– Se precisasse tinha pedido, Maria das Dores, deixe-me sossegada.
Georgina habituara-se a lidar com o mundo dos outros através de frases desferidas sem cuidado. O seu era, e sempre fora, liderado apenas por si. Maria das Dores saiu sem dizer mais nada, apenas revirando ligeiramente os olhos ao cruzar-se na porta com Luís, que se levantara, mais uma vez, para lá da hora do almoço.
– Então, mãe, como está?
– Como se isso te interessasse. Faltaste ao almoço de novo.
– Não tenho de explicar outra vez, pois não? A mãe bem sabe que trabalho noite dentro. É o momento ideal para contactar com os produtores japoneses. São os meus principais clientes.
Um encolher de ombros pôs fim à conversa. Aquele assunto das horas de trabalho aborrecia Georgina. Não sentia qualquer necessidade de entender o que fazia Luís no computador que interessasse a japoneses. Sobretudo irritava-a saber que o trabalho se resumia a desenhos para jogos palermas, para depois viciarem miúdos. Via assim o trabalho do filho.
Quando Maria das Dores trouxe um tabuleiro com o almoço para Luís, a mãe ausentou-se sem remorso. Sorriram, cúmplices. A mãe detestava o cheiro da comida fora das refeições. Aquele tabuleiro atirara-a para fora da sala.
– O menino conseguiu aquilo de ontem?
– Consegui, Maria das Dores, nem imaginas como! Adoraram as imagens e a animação, fechei o negócio. Isto vai permitir-me ter dinheiro durante cinco anos seguidinhos!
– Mas não me vai deixar aqui sozinha com a sua mãe, pois não?
Um beijo na cara daquela mulher forneceu-lhe uma resposta. Luís nunca saíra dali, a não ser para estudar. Aquela era a sua casa. Maria das Dores a sua mãe adoptiva, por escolha, sempre fora. Ainda se lembrou da ex-mulher e dos gritos trocados com Georgina, mas isso apenas o fez sorrir. Até nesse momento vivera ali. Para o bem e para o mal.
– E precisa desse dinheiro todo, menino Luís? A sua mãezinha tem que chegue para todos.
– Pois tem, mas isso é lá com ela. E já sabes, uma parte é para ti, que a minha mãe nunca te pagou nada que se visse.
– O menino é um amor, sabe? Mas não preciso, guarde tudo.
Um sobressalto cortou a conversa. Maria das Dores corou e pediu licença para sair. Luís continuou a comer. Recordava os trabalhos em que se metera por namoriscar a filha da criada, vinte anos atrás. Um casamento com uma plebeia seria uma afronta para Georgina. A rapariga fugira da terra e do país, emigrando para França. Contentara-se com a péssima escolha, para todos, que a mãe fizera para si.
Levou ele mesmo o tabuleiro à cozinha. Foi encontrar Maria das Dores a enxugar lágrimas de humilhação e ansiedade. Abraçou-a e assim ficaram, em silêncio.
– O choro é porquê, Maria das Dores?
– Medo, acho eu.
– Já lhe disseste?
– Credo, menino, não disse, nem vou dizer.
– Como fazemos, então? A verdade vem sempre à tona. Achas que não vai descobrir? Basta uma palavra para desmascarar tudo.
– Ninguém vai perceber, menino Luís, juro que não. Agora até mudou o nome, chamam-lhe Gabrielle, nome fino com dois lês.
– Não deixa de ser a tua Gabriela, Maria das Dores.
– Era Gabi. A sua mãezinha não pode reconhecê-la, nem pelo nome, nem pela cara. E a senhora dona Georgina nem imagina a minha menina à frente de uma companhia de vinhos. E ela embrulha as palavras, nem parece portuguesa. Vai correr bem. Deve estar aí a chegar… – Depois, atirou: – O menino porte-se bem!
– Sempre, tu sabes… Sempre.
Luís soltou-a e foi-se arranjar. Sabia que vinte anos eram muito tempo. Contudo, pensava: Gabi não voltaria ali sem um motivo adicional. A esperança não ocupava lugar, logo se veria. Quando desceu, vinha bem arranjado e perfumado. Optara por roupa prática e preparava-se para inventar uma ida aos correios para justificar não estar de calças velhas e sapatos cambados.
Admirou a cena do cimo das escadas, enquanto Gabrielle se apresentava e passava pela própria mãe como se não a visse. Grande actriz!, pensou Luís.
Fez então a sua aparição, fingindo-se surpreendido por ter ali alguém estranho à família. Obrigou Georgina a explicar-lhe quem era aquela mulher madura. Deliciou-se, vendo-a assim, tão segura de si e, ao mesmo tempo, tão igual ao que sempre fora. Cumprimentaram-se com cerimónia. Um teatro perfeito.
Contudo, uma demora quase imperceptível, nas mãos que se tocaram, disse tudo a Georgina. Fulminou os três com um esgar vingativo. Entrou no jogo, embora agora todos soubessem que compreendera. O negócio era irrecusável, e os seus vinhos precisavam disso. O filho… depois se veria.

Fragmentos Complexos de Pessoas Simples
Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos

(ilustração de Francisca Torres)

Desmontou a cena

Desmontou a cena, revendo um a um cada facto. Sabia que iria encontrar nalgum momento a verdade, a diferença. Metódico, começou no início de tudo.
Ela chegara, como sempre, cheia de sorrisos pouco entusiasmados mas ensaiados, de histórias inventadas para o entreter, trazendo consigo a luz do dia que acontecia lá fora, tão longe dele. Não lhe negara nada. Os dedos finos desmultiplicavam-se pelo quarto, organizando roupas, separando medicamentos, arejando o cheiro de doença que tomara conta do espaço. Há quanto tempo acontecia aquela rotina? Há tempo demais, pensou.
Parecera-lhe mais angustiada, talvez. Servira-lhe o almoço com a paciência de uma avó. Insistira para que comesse com a autoridade de um pai. Deixara-se seduzir pelas desculpas mal inventadas como uma filha. A filha que era. Ele comera tão pouco como na véspera. Tinha a certeza – até esse momento, nada de diferente acontecera.
Depois conversavam, sobre assuntos se repetiam, dia após dia. Haviam falado do que esperava por ele no futuro, e do que ela não queria que acontecesse no presente. As frases, embora diferentes, diziam o mesmo que na véspera, e na antevéspera, sem surpresas.
O que fora então diferente?, questionou-se ele. Não sabia. Até o beijo, a anunciar que se iria embora, fora dado da mesma forma, com o mesmo carinho envergonhado de quem não sabe o que mais fazer.
Só nesse instante se lembrou. Havia uma frase que faltara, sim, percebia agora. O “até amanhã”. A filha esquivara-se a dizê-lo. Entendeu então. Tudo iria acabar naquela tarde. E sossegou. Afinal, era isso que esperava havia tanto tempo… Suspirou fundo e desistiu.


Fragmentos Complexos de Pessoas Simples
Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos

(ilustração de Francisca Torres)

Foi AltaMente bom!

Cá estamos nós, eu e a Joana Jesus, a ilustradora.

Fomos visitadas por imensos amigos, estivemos sempre acompanhadas.

Um agradecimento especial à EDICARE, que fez com que este sonho chegasse a bom porto, à Joana Mendes, editora do livro, Mafalda Amaral, a nossa super-boss!

Altamente na Feira do Livro dia 14

Este é o resultado de muito trabalho, muita paixão e muitos resultados reais que nos fazem pensar: afinal, a nossa mente é muito mais nossa amiga do que pensávamos!!! 


Alta

mente


Venham daí, o livro ficou lindo! Um enorme agradecimento à Edicare - os sonhos passaram a realidade com o vosso carinho.

As ilustrações são de Joana de Jesus
Mais informações aqui



Sessão de autógrafos, Feira do Livro de Lisboa, 14 de Junho, às 18h
EDICARE EDITORA
B26-B28-B30
Mapa da Feira