21 Novembro às 16h30 Estemoz

É verdade.



No dia 21 de novembro, pelas 16h30, no auditório da Casa de Estremoz, estarei à conversa sobre o livro “De zero a dez”

Esta iniciativa conta com a apresentação de Maria Zulmira Varela Baleiro (Zuzu) e com a presença da Enfermeira Sílvia Noruegas

De Zero a Dez - livraria Arquivo, Leiria


Foi tão bom
na Livraria Arquivo, em Leiria, rodeada de amigos!

De Zero a Dez, com a dor crónica em pano de fundo, um
livro do Clube do Autor

De Zero a Dez no BioBanco-IMM

É verdade. Esta será a apresentação para profissionais de saúde do livro De Zero a Dez.
Eu e o prof João Eurico Cabral da Fonseca estaremos a apresentar o livro e a dialogar sobre ele.

Estão todos convidados.

Dia 11 de Novembro, Hospital de Santa Maria

Diáspora - Festival Literário de Belmonte


Estarei aqui no dia 7 de Novembro!!!

Apareçam.

Uma verdade instalada - Fragmentos

A verdade instalara-se na conversa com o propósito de fazer aparecer as mentiras que cada um trouxera para aquele quarto. Fausto sabia disso. Clara tentava confirmar a ignorância do marido. Fora apenas uma frase deixada ao acaso, sujeita a interpretações diversas, desejava. Clara queria muito acreditar que Fausto não dissera aquela frase com intenção, e foi isso que a desgraçou.
A presença ausente de um outro, introduzira-se entre os dois. Primeiro por Clara, nas ausências injustificadas. Depois nas palavras de Fausto, ganhando o peso de ameaças e desconfianças. Clara agitava a cabeça, numa negação infantil. Isso continha em si a magia de encobrir a traição, consumada sem apreensão.
Contudo, Fausto também a atraiçoara. Fizera-o de forma mais subtil, mais drástica e muito mais impossível de apagar. Clara intuía isso. Só a falta de palavras, obrigando-a a entender, a haviam desobrigado de pensar.
A mentira de cada um juntava-se à verdade daquela conversa, a última. Fausto preparara já a fuga, deixando-a a braços com as dívidas e os credores. Também lhe deixaria a solidão e a necessidade de recomeço. A infidelidade de Clara seria o pretexto, nunca a razão. Precisava de se controlar, na saída, para Clara não se aperceber do que fizera. Mas era tarde. A clarividência do escondido surgiu a Clara como uma iluminação.
O seu corpo endireitou-se, preparando-se para o embate. Fausto subiu o tom, recriminando-a. Mostrou-se ofendido na sua qualidade de marido e homem. As mãos tremeram ao de leve, mas não tão leve que Clara não visse. As perguntas certas apareceram a Clara como se tivesse um ponto, numa peça mal estudada. As dívidas abafaram as dúvidas. Tudo se esclareceria em segundos.
No bolso de Clara, digitadas por memória do espaço, as teclas necessárias abriam um canal para que outros ouvissem aquelas palavras. A zanga de Fausto subia, assim como a coragem de Clara e o perigo avaliado do outro lado da linha. Os minutos passaram, sim, mas não lentos, como Fausto precisava. A brigada chegou, imobilizou-o e levou-o.
A verdade, depois de instalada na conversa e na ligação, dera um propósito justo. As mentiras, trazidas por cada um para aquele quarto, desapareciam. A verdade surgia agora como uma resolução.
De cabeça erguida, Clara pegou de novo no telemóvel. Podia agora chamar o outro para a verdade da sua vida. Ficaria a braços com as dívidas e os credores, a solidão e o recomeço. Mas havia um outro, tão diferente, a ampará-la.

A mentira de Fausto, caindo por terra, trancá-lo-ia por muitos anos. A dela provocaria apenas uma cela de conversas e inícios de futuro. E abria-se todos os dias.

Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos

Maré de Palavras, Moita

Lá estarei, dia 18 de outubro, para um workshop e uma comunicação.

Venham daí!

Magazine Mais Opinião

Uma leitura do livro De Zero a Dez, pela Joana Felizardo Valente, no Magazine Mais Opinião, e que deixou mesmo feliz. Obrigada, Joana.

Fragmentos - O baloiço

O baloiço ficara rachado ao meio, depois do temporal. Justina pensava no que diriam os outros ao vê-lo assim. Transformado em dois pedaços de madeira sem conserto, presos por cordas, havia perdido a sua função.
Enterrando os pés na lama, avançou até ao baloiço. Nunca antes passeara assim, de pés nus pelo quintal. Nunca lhe seria permitido, mas nem tentara. Contudo, agora tudo mudara. Não fora apenas o baloiço a partir-se em dois, também a sua vida assim se partira. Existia agora em duas metades: um antes e um depois. Não se lembrava de nenhum momento presente que pudesse corresponder à transição, mas isso não lhe ocupava o espírito. Não nesse depois.
Ao agarrar na corda para se encavalitar numa das metades do baloiço, estranhou as mãos. Sujas de castanho, secas de mistério. Mais uma vez não perdeu tempo descobrir um antes limpo e um depois sujo. Contudo, o contacto com a corda atrapalhou-a. Estava húmida, e o castanho avermelhava-se ao prender-se a ela. Não pensou mais. De certa forma, acabara a necessidade de se justificar, de se afligir.
A posição não era cómoda, mas Justina conseguia recordar o prazer antigo de baloiçar. À volta, tudo molhado. Casas desfeitas, muita destruição. Dentro de sua casa, era igual. O frio entrou-lhe pela camisa de dormir de flanela, também ela suja.
As horas passaram. Justina podia ter saído do baloiço. Não o fez. Podia ter desconfiado do aparato policial, isolando a casa. Não se lembrou disso. Podia ter inventado outra razão para ali estar, calçada de lama. Não lhe apeteceu. Podia ter justificado o castanho sujo e seco com algumas frases. Não as disse.
Foi levada à força, enquanto tentava agarrar-se ao baloiço.
Foi condenada por força das circunstâncias. Não havia outras soluções que apaziguassem os vizinhos e explicassem a morte do padrinho.
Foi encarcerada com a força da determinação que sentia, sabendo nunca mais ter de regressar àquele espaço. Tudo seria melhor do que ter ficado ali, a braços com as investidas do padrinho. Tudo seria mais fácil do que apagar-lhe a vida. E isso já era passado.
Para trás ficaram farrapos de momentos, numa ânsia de os esquecer. Nunca disse ser inocente, deixou inocente quem lhe chacinara o corpo e a alma. Não lhe fazia diferença. Já não.
Agora, de mãos limpas e camisa lavada, tenta lavar-se por dentro, para que nunca mais regressem as recordações. Não daquele dia, dos outros, dos anteriores.
Um delírio no temporal, justificou o médico da prisão.
Um delírio no temporal, sussurrou ela ao baloiço, de longe, quando, por instantes, viu o que não sabia ter feito, arrumando-o no esquecimento.
Justina era apenas um ponto final.

Fragmentos Complexos de Pessoas Simples
Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos

A lista de Belmiro

Belmiro dobrou a lista, a sua lista de coisas a fazer no novo ano. Fora pensada com um cuidado extremo quase cansativo. Ouvia lá dentro a voz do pai, derrubando as paredes com o eco:
– Aquele indolente já se levantou? Ou vai passar a meia-noite na mesma posição em que passa o dia?
Era assim que Inácio Postiga falava do filho, quando não estava com ele. Quando se encontravam, ia mais longe, atirando-lhe à cara o dinheiro gasto em electricidade, pois o filho não largava o computador, a televisão e o aquecimento. No Verão, o aquecimento era substituído por uma ventoinha.
Inácio Postiga maldizia o dia em que o recebera de volta, depois de uma fuga em forma esboçada. A tentativa afastara-o de casa durante duas horas, cinquenta e dois minutos, e alguns segundos. Poucos. Tivesse Inácio percebido a tempo que fora uma fuga, e a readmissão na casa paterna não chegaria a acontecer.
Belmiro inspirou fundo, concentrando-se nas suas promessas para o ano que começaria dali a pouco. Sentiu, levando a mão ao bolso, como as tinha perto. Susteve a respiração. Jurou segurar no papel enquanto deglutisse as deslavadas passas de uva. Ao expirar, saiu do quarto e dirigiu-se à sala.
Evitou cruzar o olhar com o pai, recebendo da mãe festas no cabelo, como se tivesse dez anos. Ou mesmo quinze, idade em que, com forte convicção, abandonara os estudos para se dedicar à sua paixão – fazer da mãe sua criada sem que ela notasse. Isso acontecera havia dezassete anos.
Tudo parecia correr de feição naquela noite, não fosse a presença incómoda dos irmãos mais velhos, de semblante cansado e mãos calejadas, e das cunhadas, cada uma mais disforme do que a outra, evidenciando os cinquentas alojados nas ancas para sempre.
Na televisão, o comediante brincava com personalidades de que nunca ouvira falar. Disfarçou esse facto, evitando risos dos irmãos.
Chegara o momento!
As badaladas soavam pela sala, a mãe tremelicava de contentamento, de excitação. Era o momento alto do ano. De certa forma, era mesmo. Nunca ficava acordada para lá das onze.
Uma dúvida alojou-se então no cérebro de Belmiro. Como poderia completar o 9º ano, se nunca terminara o 6º? A coisa estava já a correr mal... E, procurando emprego em part-time, quem faria companhia à mãe na sua ausência? Não podia ser! Por último: se aprendesse a dobrar meias, por exemplo, que faria a mãe com as horas que lhe sobravam?
Estava a ser egoísta. Não podia fazer tal coisa a uma mulher que dedicara a sua vida a fazer dele um brinquedo de estimação. Fora apenas uma ideia tola de fim de ano... Não, Belmiro iria iniciar o novo ano mantendo-se fiel a si mesmo!
Quando a última badalada soou, deitou simbolicamente o papel para a lareira, mesmo a tempo de fugir à promessa. Quando a mãe o abraçou e lhe desejou bom ano, ele chegou-a ainda mais a si, sussurrando-lhe:
– Vai tudo correr bem, acredita, mãe, tudo...

E Etelvina comoveu-se, ficou com a sua mão presa na de Belmiro e sonhou. Iria finalmente ver o seu menino crescer!

Fragmentos Simples de Pessoas Complexas
Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos