O Baile (Fragmentos)

Afastou-se da confusão, do barulho, da cerimónia obrigatória, do sorriso forçado. Já fizera o prometido. Estivera até mais tempo do que pensara e cumprira todas as imposições sociais conhecidas. Bastava. Só o tempo lhe parecera familiar, mas depressa se esquecera disso. Agora, o tempo era seu.
Entrou na carruagem, ajeitando o vestido império com um cuidado justificado pelo preço do aluguer. Regressava a casa. Fora o serão mais longo de que tinha memória. Queria repousar, finalmente.
Agradeceu ao cocheiro a sua cumplicidade naquele disfarce, tão longínquo da sua vida rotineira de marketing, e apressou-se escada acima. Queria evitar encontros com vizinhos no elevador. Não iria suportar mais conversas!
A chave queixou-se, ao dar as quatro voltas. Tacteou no escuro a parede, procurando o interruptor. Não o encontrou. Sem demora, agarrou no telemóvel, pedindo-lhe a luz de que precisava.
Só então percebeu: nunca o encontraria… Os olhos, habituando-se por fim à semi-escuridão, compreenderam a mudança. Matilde entrava num dos quartos do palácio de onde fugira havia minutos. Não era verdade. Fugira das pessoas, não do palácio, e isso fazia um estranho sentido como remate daquele dia.
Fechou a porta atrás de si, não estranhando o ruído arcaico a substituir o da sua porta. Uma vela, sem ajuda de ninguém, iluminou-se. Matilde sorriu. Pareceu-lhe correcto, no meio de tanto cansaço e incoerência. Deixou-se cair no canapé. Ocupava o lugar do sofá moderno. Encolheu os ombros, vencida.
O baile, com trajes à época, desorientara-lhe as promessas de um fim-de-semana tranquilo. Não pudera recusar o convite. Afinal, Maria era a sua única prima. Os seus desejos sempre haviam sido verdadeiras ordens para Matilde. Mas agora…
Esperou, sem saber o quê. Sentiu apenas que devia esperar. Passados alguns segundos, sentiu uma presença, na parte livre do canapé. Não se admirou.
– Aqui estamos – disse Álvaro, sem malícia.
– Era inevitável, parece-me – comentou Matilde.
– Tens razão.
– Levaste tempo…
A mão fria e etérea de Álvaro agarrou a de Matilde, acariciando-a com mais de um século de atraso.
– Pensei que não acreditavas em vidas passadas – brincou Álvaro, atacado de seguida por um acesso daquela tosse que o levara, num tempo recuado. – O que fazemos?
– Recomeçamos – respondeu Matilde, sentindo bem dentro de si a certeza. – Neste tempo, podemos.
Álvaro sorriu-lhe, desaparecendo de seguida.
Matilde agitou-se. Já estava de novo no seu apartamento, com a luz do tecto acesa, sentada no sofá onde a roupa império destoava. Ao levantar-se, ouviu um toque muito leve na porta.

Abriu. Reconheceu-o. Álvaro trocara a roupa antiga por uma descontraída, de domingo tranquilo. Trocara também de nome, para um Pedro mais moderno. E, mesmo tendo apenas trocado as palavras que significavam os seus nomes actuais, abraçaram-se para continuar o que ficara por fazer num tempo desaparecido.

Fragmentos Complexos de Pessoas Simples
Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos

Desengane-se (Fragmentos)

 Os gestos eram mecânicos, inconscientes, impossíveis de parar. Parecidos com um tique de infância, repisado, censurado sem efeito, mas certamente nunca pensado. A mão ia e vinha, tendo como destino a caixa de velocidades. Como num carro de corrida, num constante movimento ritmado. Ali andava aquela mão, ora suspensa no ar, à espera da ordem de um co-piloto inexistente, ora num trajecto em nada parecido com um rali, mergulhando novamente na manete, sem a accionar, apenas para a acariciar, como que a tomar balanço para ficar suspensa de novo no ar.
Os olhos iam até ao espelho retrovisor, não em busca de um olhar retribuído, mas apenas porque o hábito os mandava nessa consulta, tempos a tempos. A cegueira da repetição impedia-os de tomarem consciência do tráfego atrás de nós, ou da mercadoria no banco de trás, eu, como me dissera ao entrar.
A distância a separar o seu tronco do volante era igual à incapacidade de aceitar as opiniões de outros. A sua voz era o eco de uma verdade absoluta, desde a política à gestão das obras públicas, do custo das refeições à pouca clientela, da crítica aos polícias à defesa do trabalhador de poucos recursos.
Diverti-me a encher os minutos de convivência forçada. Atirei assuntos para o ar. Agarrou-os com a mesma destreza com que alcançava a caixa de velocidades, ou me olhava no espelho. Fiquei a saber verdades acerca de tudo, as mais verdadeiras, as únicas.
No momento do embate, o susto toldou-me a observação por breves instantes. Vi-o sair com dificuldade. A posição avariara-lhe as ancas. Deu a volta ao carro para ver os estragos que o janota do carro de trás, agarrado ao telemóvel, lhe fizera no pára-choques.
Deixei-me ficar. Percebi como o mundo estava contra mim naquele dia. O comboio não era para mim naquele horário. A calma era para os outros naquele momento. Quando me ajeitei no banco, para tentar aliviar a imobilidade, ele surgiu. Feroz, do lado de fora da minha porta, gritava:
– Eu sabia! Eu sabia! É perguntas parvas. É a estudar-me os movimentos. É a olhar-me para o volante...! Eu sabia! Vá! Fuja lá sem pagar, fuja! Vá! Julga que eu ando nisto há meia dúzia de dias, é? Julga? Pois desengane-se, ouviu? Desengane-se, que a polícia trata já do seu caso e do deste janota, ai trata, trata!
Olhei para o janota. Encontrava-se tão espantado quanto eu. O taxista, furioso e atento, mantinha um olho no janota, outro em mim, o passageiro que iria fugir sem pagar. Sim, o passageiro combinado com o compincha do carro de trás. Tudo combinado para lhe fazer a vida num inferno. Ele percebera a marosca, gritava. Qual marosca?, ainda perguntámos. Uma pergunta sem resposta, já que os gritos se sucediam sem interrupção. Juntavam-se várias pessoas na rua, olhando os marginais (eu e o janota).
A teoria era simples. O janota vinha por trás, batia ao de leve, de modo a não amachucar o seu lindo carrinho, e eu pisgava-me no meu destino, sem pagar, porque ele há gente para tudo. Não adiantou explicar o absurdo desta teoria. Sendo assm, porque não viria eu no carro do janota, Santo Deus?! Qual carapuça, se nos julgávamos mais espertos que ele, estávamos muito enganados...
A polícia chegou, já que a rua estava empanada à custa da gracinha. O janota era um tipo com argumentos, cheio de estilo. Livre, andava à solta na rua. Eu permanecia trancado dentro do táxi. O homem contava a história com muitos pormenores, muitos mais do que seria aconselhável para comover o primeiro polícia. O janota ia comentando e dando uma notita ao segundo polícia. O trânsito escoava devagar, por ser tão difícil perceber o acontecido.
Vi o janota voltar ao carro e arrancar como se estivesse num rali. Vi o motorista ser afastado do carro com conversas calmas. Vi o polícia da notita a fazer-me sinais para desaparecer enquanto era tempo.
Assim fiz. Afinal o homem tinha razão: eu era daqueles que foge sem pagar. E estava combinado com o janota, já que me esperava na esquina. Levou-me ao comboio seguinte, à peripécia seguinte, à surpresa seguinte.
Os gestos, os gestos… A caixa de velocidade rangia com o excesso de utilização. O tronco, longíssimo do volante, mantinha à distância as minhas ideias. Os olhos apenas procuravam no espelho retrovisor o taxista enfurecido que, se nos visse, nos perseguiria até à morte.


Fragmentos Simples de Pessoas Complexas
Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos

Não seria encontrado (Fragmentos)

"Considera esta carta o fim. Não tentes encontrar-me. O nosso mundo acabou, sabes disso. Seremos, a partir de hoje, memórias. Somos, desde aquele dia, apenas desconhecidos. Podes decidir esquecer as memórias. Espero que me entendas. Perdoa-me. Até sempre."
Benedita pousou o papel e procurou o lenço. As lágrimas não lhe facilitavam a tarefa, nem os pensamentos. Baralhavam-se memórias, dúvidas e remorsos. Obstinada, teve a certeza.
A chuva não a incomodou. Nem sequer lhe atrasou o andar decidido. Seguiu o trajecto conhecido. Enterrou os passos na areia quando a praia se mostrou como destino.
Diz, quem a viu de longe, que nunca parou. Caminhou para as vagas com a decisão de terminar o que já acabara. Nem o frio, nem o mar revolto a dissuadiram. O plano era para cumprir. E o corpo não iria ser encontrado.
A verdade chegou a António antes da carta. O mulherio em alvoroço, os homens em luta com a força do mar. Uma força decidida a cumprir os desejos de Benedita. Só a noite os fez desistir. António sabia que morrera o tempo de Benedita.
A sós com o silêncio da casa onde já não sabia morar, António leu a carta. Curta, seca, determinante. Pôde imaginar os passos dados de encontro ao fim. Reviu as conversas por começar, as mágoas mal escondidas, as promessas por cumprir. Entendeu as razões.
Entrou no pequeno quarto onde tudo expirara. Um berço por usar. A morte arrancara-lhes o filho antes de o conhecerem. Uma cadeira de baloiço imóvel. Histórias por ler ao sabor do balanço, canções por entoar. Uma cómoda incomodada pelo desuso, cheia de roupas sem dono. Uma roca esquecida.
Fechou a porta, abriu uma mochila. Levou consigo apenas a roca. Embalou as memórias. Voltaria a elas? Talvez não. Saiu na direcção contrária ao mar. Os olhos secos por nada mais poderem vencer.
Diz, quem o viu ao longe, que seguiu a estrada do deserto. Caminhou para o infinito, decidido a apagar o que sobrara. Nem a agrura do vento, nem o mar de dunas o dissuadiram. O plano cumprido. E o corpo não iria ser encontrado.

Fragmentos Complexos de Pessoas Simples
Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos

Fragmentos

Fragmentos é um livro de contos.
Divididos em duas partes, 
Fragmentos Complexos de Pessoas Simples
Fragmentos Simples de Pessoas Complexas,
estes são contos de pessoas como nós, em momentos da vida em que, num pequeno fragmento, tudo muda, ou tudo se consolida. Uma visão do presente, escondido entre o passado e o futuro.

Este livro ganhou a Menção Honrosa no Prémio Literário Orlando Gonçalves, da Câmara Municipal da Amadora. Fiquei muito feliz com isso.

É difícil publicar contos em Portugal, muito difícil mesmo, mas gosto destes contos. Partilho-os convosco. Espero que gostem!

Índice
Fragmentos Complexos de Pessoas Simples. 2
Não seria encontrado - publicado 11 agosto 2014. 2
O baile - publicado 25 agosto 2014
Guardar na tela. 4
Morreu de vez. 5
O baloiço. 7
As dunas. 8
Desmontou a cena. 9
O remendo. 10
Jasmim.. 11
Parti 12
Naquela tarde. 12

Fragmentos Simples de Pessoas Complexas. 14
Desengane-se - publicado 18 agosto 2014. 14
Desta vez. 16
Um enredo. 18
A lista de Belmiro. 19
Uma verdade instalada. 20
Gabi 22
Vestida de damasco. 24
O desfalque. 24
Não leve a mal 25
Ímpar 26
Livros. 27

Póvoa de Varzim, feira do livro

Dia 6, estarei a apresentar "O Boião Mágico" na Feira do Livro da Póvoa de Varzim às 18h. Logo de seguida, apresentarei o romance "De Zero a Dez".
No dia seguinte, dia 7, estarei com Paulo Ferreira e Manuela Gonzaga à conversa às 22h.  
Venham daí! 
http://www.cm-pvarzim.pt/noticias/feira-do-livro-abre-hoje-com-exposicao-sobre-universidade-do-minho

O boião mágico no PNL

O Boião Mágico - sinopse 

Na escola do primeiro ciclo da pequena aldeia de Santana, a professora Matilde não pode acreditar que os seus alunos não queiram fazer uma prenda para o Dia do Pai. «Não sei se vale a pena... Andam todos tristes», é a resposta do João, o mais velho dos alunos. Mas Matilde não cruza os braços e tem uma ideia genial: ao mesmo tempo que ensina os princípios da reciclagem do lixo necessários para todos em conjunto fazerem uma prenda, também vai ensinar a reciclar outra espécie de lixo – as preocupações, os medos, a tristeza... – de uma forma especial. Estás curioso para saber como? Então lê esta história, procura um boião vazio e aprende a utilizar esta magia! 

Esta reedição, agora na Editorial Presença, ficou especialmente bonita. Uma história sobre estes tempos de desalento e interrogações, mas com pistas para viver melhor, a cada dia. Espero que gostem. É recomendado pelo PNL.

Podem ouvir aqui a entrevista com Helena Almeida, na Companhia da Rádio, Rádio Sim.

Conto - Suplemento de Educação do Jornal de Letras - Junho

Aqui fica o meu conto, publicado no Jornal de Letras, Suplemento de Educação, em Junho.

A ilustração é, como sempre, da Filipa Lourenço.

(carregando na imagem, é fácil ler)

Histórias com Rui Tovar

É um choque saber que Rui Tovar desapareceu fisicamente da nossa realidade. No nosso lugar especial, o
dos amigos, ficará para sempre.
Conheci o Rui por ser marido da minha querida editora na altura, Maria João Lourenço. A amizade foi tão simples...
Depois, precisei muito da sua ajuda, pois teria de escrever 7x11, histórias do futebol  e, embora goste de ver e perceba o jogo, não sabia nada das histórias da vida da selecção nacional. Explicado como funcionava o livro, ou seja, histórias contadas por 7 objectos ligados ao futebol, o Rui disse que ia escolher os jogos.
Foi aí que se deu a magia: para cada objecto que eu seleccionara, havia um jogo para o deixar falar, ao objecto, na primeira pessoa. Por fim, sobrou-nos uma luva de guarda-redes e o Euro 2004. Foi evidente para ambos que, embora pudéssemos falar dos jogos com a Grécia, o certo seria contar a história das luvas de Ricardo, no momento de defender os penalties contra a Inglaterra. O livro estava pronto! A Inês do Carmo fez as ilustrações maravilhosas. Perfeito!
Sinto, de certa forma, que guardei um pedacinho de Rui Tovar comigo, no prefácio, no livro.
Obrigada, amigo.