Uma verdade instalada - Fragmentos

A verdade instalara-se na conversa com o propósito de fazer aparecer as mentiras que cada um trouxera para aquele quarto. Fausto sabia disso. Clara tentava confirmar a ignorância do marido. Fora apenas uma frase deixada ao acaso, sujeita a interpretações diversas, desejava. Clara queria muito acreditar que Fausto não dissera aquela frase com intenção, e foi isso que a desgraçou.
A presença ausente de um outro, introduzira-se entre os dois. Primeiro por Clara, nas ausências injustificadas. Depois nas palavras de Fausto, ganhando o peso de ameaças e desconfianças. Clara agitava a cabeça, numa negação infantil. Isso continha em si a magia de encobrir a traição, consumada sem apreensão.
Contudo, Fausto também a atraiçoara. Fizera-o de forma mais subtil, mais drástica e muito mais impossível de apagar. Clara intuía isso. Só a falta de palavras, obrigando-a a entender, a haviam desobrigado de pensar.
A mentira de cada um juntava-se à verdade daquela conversa, a última. Fausto preparara já a fuga, deixando-a a braços com as dívidas e os credores. Também lhe deixaria a solidão e a necessidade de recomeço. A infidelidade de Clara seria o pretexto, nunca a razão. Precisava de se controlar, na saída, para Clara não se aperceber do que fizera. Mas era tarde. A clarividência do escondido surgiu a Clara como uma iluminação.
O seu corpo endireitou-se, preparando-se para o embate. Fausto subiu o tom, recriminando-a. Mostrou-se ofendido na sua qualidade de marido e homem. As mãos tremeram ao de leve, mas não tão leve que Clara não visse. As perguntas certas apareceram a Clara como se tivesse um ponto, numa peça mal estudada. As dívidas abafaram as dúvidas. Tudo se esclareceria em segundos.
No bolso de Clara, digitadas por memória do espaço, as teclas necessárias abriam um canal para que outros ouvissem aquelas palavras. A zanga de Fausto subia, assim como a coragem de Clara e o perigo avaliado do outro lado da linha. Os minutos passaram, sim, mas não lentos, como Fausto precisava. A brigada chegou, imobilizou-o e levou-o.
A verdade, depois de instalada na conversa e na ligação, dera um propósito justo. As mentiras, trazidas por cada um para aquele quarto, desapareciam. A verdade surgia agora como uma resolução.
De cabeça erguida, Clara pegou de novo no telemóvel. Podia agora chamar o outro para a verdade da sua vida. Ficaria a braços com as dívidas e os credores, a solidão e o recomeço. Mas havia um outro, tão diferente, a ampará-la.

A mentira de Fausto, caindo por terra, trancá-lo-ia por muitos anos. A dela provocaria apenas uma cela de conversas e inícios de futuro. E abria-se todos os dias.

Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos

Maré de Palavras, Moita

Lá estarei, dia 18 de outubro, para um workshop e uma comunicação.

Venham daí!

Magazine Mais Opinião

Uma leitura do livro De Zero a Dez, pela Joana Felizardo Valente, no Magazine Mais Opinião, e que deixou mesmo feliz. Obrigada, Joana.

Fragmentos - O baloiço

O baloiço ficara rachado ao meio, depois do temporal. Justina pensava no que diriam os outros ao vê-lo assim. Transformado em dois pedaços de madeira sem conserto, presos por cordas, havia perdido a sua função.
Enterrando os pés na lama, avançou até ao baloiço. Nunca antes passeara assim, de pés nus pelo quintal. Nunca lhe seria permitido, mas nem tentara. Contudo, agora tudo mudara. Não fora apenas o baloiço a partir-se em dois, também a sua vida assim se partira. Existia agora em duas metades: um antes e um depois. Não se lembrava de nenhum momento presente que pudesse corresponder à transição, mas isso não lhe ocupava o espírito. Não nesse depois.
Ao agarrar na corda para se encavalitar numa das metades do baloiço, estranhou as mãos. Sujas de castanho, secas de mistério. Mais uma vez não perdeu tempo descobrir um antes limpo e um depois sujo. Contudo, o contacto com a corda atrapalhou-a. Estava húmida, e o castanho avermelhava-se ao prender-se a ela. Não pensou mais. De certa forma, acabara a necessidade de se justificar, de se afligir.
A posição não era cómoda, mas Justina conseguia recordar o prazer antigo de baloiçar. À volta, tudo molhado. Casas desfeitas, muita destruição. Dentro de sua casa, era igual. O frio entrou-lhe pela camisa de dormir de flanela, também ela suja.
As horas passaram. Justina podia ter saído do baloiço. Não o fez. Podia ter desconfiado do aparato policial, isolando a casa. Não se lembrou disso. Podia ter inventado outra razão para ali estar, calçada de lama. Não lhe apeteceu. Podia ter justificado o castanho sujo e seco com algumas frases. Não as disse.
Foi levada à força, enquanto tentava agarrar-se ao baloiço.
Foi condenada por força das circunstâncias. Não havia outras soluções que apaziguassem os vizinhos e explicassem a morte do padrinho.
Foi encarcerada com a força da determinação que sentia, sabendo nunca mais ter de regressar àquele espaço. Tudo seria melhor do que ter ficado ali, a braços com as investidas do padrinho. Tudo seria mais fácil do que apagar-lhe a vida. E isso já era passado.
Para trás ficaram farrapos de momentos, numa ânsia de os esquecer. Nunca disse ser inocente, deixou inocente quem lhe chacinara o corpo e a alma. Não lhe fazia diferença. Já não.
Agora, de mãos limpas e camisa lavada, tenta lavar-se por dentro, para que nunca mais regressem as recordações. Não daquele dia, dos outros, dos anteriores.
Um delírio no temporal, justificou o médico da prisão.
Um delírio no temporal, sussurrou ela ao baloiço, de longe, quando, por instantes, viu o que não sabia ter feito, arrumando-o no esquecimento.
Justina era apenas um ponto final.

Fragmentos Complexos de Pessoas Simples
Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos

A lista de Belmiro

Belmiro dobrou a lista, a sua lista de coisas a fazer no novo ano. Fora pensada com um cuidado extremo quase cansativo. Ouvia lá dentro a voz do pai, derrubando as paredes com o eco:
– Aquele indolente já se levantou? Ou vai passar a meia-noite na mesma posição em que passa o dia?
Era assim que Inácio Postiga falava do filho, quando não estava com ele. Quando se encontravam, ia mais longe, atirando-lhe à cara o dinheiro gasto em electricidade, pois o filho não largava o computador, a televisão e o aquecimento. No Verão, o aquecimento era substituído por uma ventoinha.
Inácio Postiga maldizia o dia em que o recebera de volta, depois de uma fuga em forma esboçada. A tentativa afastara-o de casa durante duas horas, cinquenta e dois minutos, e alguns segundos. Poucos. Tivesse Inácio percebido a tempo que fora uma fuga, e a readmissão na casa paterna não chegaria a acontecer.
Belmiro inspirou fundo, concentrando-se nas suas promessas para o ano que começaria dali a pouco. Sentiu, levando a mão ao bolso, como as tinha perto. Susteve a respiração. Jurou segurar no papel enquanto deglutisse as deslavadas passas de uva. Ao expirar, saiu do quarto e dirigiu-se à sala.
Evitou cruzar o olhar com o pai, recebendo da mãe festas no cabelo, como se tivesse dez anos. Ou mesmo quinze, idade em que, com forte convicção, abandonara os estudos para se dedicar à sua paixão – fazer da mãe sua criada sem que ela notasse. Isso acontecera havia dezassete anos.
Tudo parecia correr de feição naquela noite, não fosse a presença incómoda dos irmãos mais velhos, de semblante cansado e mãos calejadas, e das cunhadas, cada uma mais disforme do que a outra, evidenciando os cinquentas alojados nas ancas para sempre.
Na televisão, o comediante brincava com personalidades de que nunca ouvira falar. Disfarçou esse facto, evitando risos dos irmãos.
Chegara o momento!
As badaladas soavam pela sala, a mãe tremelicava de contentamento, de excitação. Era o momento alto do ano. De certa forma, era mesmo. Nunca ficava acordada para lá das onze.
Uma dúvida alojou-se então no cérebro de Belmiro. Como poderia completar o 9º ano, se nunca terminara o 6º? A coisa estava já a correr mal... E, procurando emprego em part-time, quem faria companhia à mãe na sua ausência? Não podia ser! Por último: se aprendesse a dobrar meias, por exemplo, que faria a mãe com as horas que lhe sobravam?
Estava a ser egoísta. Não podia fazer tal coisa a uma mulher que dedicara a sua vida a fazer dele um brinquedo de estimação. Fora apenas uma ideia tola de fim de ano... Não, Belmiro iria iniciar o novo ano mantendo-se fiel a si mesmo!
Quando a última badalada soou, deitou simbolicamente o papel para a lareira, mesmo a tempo de fugir à promessa. Quando a mãe o abraçou e lhe desejou bom ano, ele chegou-a ainda mais a si, sussurrando-lhe:
– Vai tudo correr bem, acredita, mãe, tudo...

E Etelvina comoveu-se, ficou com a sua mão presa na de Belmiro e sonhou. Iria finalmente ver o seu menino crescer!

Fragmentos Simples de Pessoas Complexas
Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos

Morreu de vez - Fragmentos

– Ainda és um miúdo, David. Desculpa, mas é verdade… – acrescentou o prior, ao ver o rosto do miúdo transformar-se num esgar. Tinha-o preso pelo braço pesado e sólido, como um ramo de carvalho encaixado nos ombros imberbes. – Se te perguntasse, qual era para ti a maior virtude, hã?
David sorriu, mostrando os dentes amarelados pela falta de higiene.
– O que é isso?
– Virtude? Não sabes o que é? Vês?! Ainda és um miúdo…
– Já disse que não! Explique-me, que eu respondo.
O prior suspirou. Já se arrependera da pergunta, mas agora David queria ir até ao fim. Insistia, queria responder.
– Uma virtude não se explica – ouviram dizer atrás deles.
David, ao reconhecer o cangalheiro, largou a correr, desaparecendo na esquina da igreja.
– O senhor prior já devia saber que o David é pouco dado a essas coisas. Ele nem sabe o nome da terra onde nasceu…
– Tens razão – concordou o prior, sentando-se no banco de pedra e incitando o cangalheiro a imitá-lo. – Que queres? Aborreço-me. – Depois, mudando de tom, encarou o seu parceiro de conversa. – Uma virtude não se explica, hein?… Bem respondido. Mas assustaste o rapaz, coitado.
O cangalheiro sorriu, com bonomia.
– Sabe ao que venho?
– Se acreditar no que dizem por aí, sei. Senão, estou às cegas.
– Já escolheu o sítio?
– Posso escolher? – O prior estava espantado. – Isso é bom. – Olhando à volta, apontou: – Ali ao lado do carvalho, achas bem?
– Não tenho de achar nada. Se é aí que quer ficar, fica. Mais alguma coisa?
– Acho que não…
O cangalheiro levantou-se. Agarrou na pá e olhou para os sinos, que começaram de imediato a repicar. David apareceu a correr.
– O que foi?
– Morreu, agora de vez – disse o cangalheiro. – Ajudas-me?

Quando olhou para ele, já David desaparecera de novo. A multidão foi-se juntando. Nos braços dos fiéis, vinha o caixão, velado durante a noite. O buraco aberto, junto ao carvalho, esperava-o. Só David não compareceu, mas ninguém reparou.

Fragmentos Complexos de Pessoas Simples
Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos

Idas às escolas

Agradeço a todos os convites que me têm chegado. 

Porém, e por motivos de saúde, estou bastante limitada nas minhas idas a escolas. Fazer várias sessões (como fiz, tantos anos), viagens enormes e todas as semanas, deixou de ser possível. Não é segredo (aliás porque escrevi o livro "De Zero a Dez" sobre a vida com dor crónica) que tenho uma espondilartrite e que, por causa dela e de todas as complicações que daí advêm, preciso de ter um enorme cuidado com o que faço. Por isso, salvo raríssimas excepções, farei as visitas de autor aqui perto de Lisboa, podendo, para as escolas mais longe, conversar com os alunos por skype. Funciona mesmo muito bem, já somos vários escritores a fazê-lo! E assim chegamos a todas as comunidades.

Tirando este preâmbulo, posso dizer-vos como costumo fazer: 
- Só estarei com turmas que tiverem trabalhado em sala de aula livros meus (selecciono assim onde vou, deixando de fora as escolas/turmas que não trabalharam). Nunca vou a escolas inteiras, ou agrupamentos.
- Farei uma, excepcionalmente duas sessões, cada uma com duas ou três turmas, cerca de 45 minutos. - Deverá haver uma feira do livro com títulos meus, pelo menos no dia da sessão. 
- Só confirmarei a minha ida depois de receber a lista de turmas, com o professor responsável por cada e a obra trabalhada. 
- Normalmente, a escola suporta a deslocação

Achei melhor escrever este texto, para ficar tudo claro e poderem entender as razões. Obrigada pela paciência de o lerem!

(Nota: outra das coisas que deixei mesmo de fazer é dar aulas de escrita criativa nas escolas, pelas mesmas razões, é uma actividade que provoca muita inflamção. Há pessoas em quem confio de olhos fechados que poderão fazê-lo, indicarei os seus nomes a quem precisar)

Um enredo

– Ela tem uma filha, mas não lhe liga nenhuma.
Aquela frase, suspensa a meio da conversa, entre o bule e a intriga, deixou Jaime perplexo. Se estivesse mais atento, teria percebido, pensou. Contudo, não podia pedir que voltassem atrás e lhe explicassem.
“Ela tem uma filha, mas não lhe liga nenhuma.” A frase dificilmente seria mais rica de enredo.
Desligou-se por completo da conversa e enveredou por uma construção ficcional avassaladora. Apetecia-lhe desligar-se também da situação, correndo para sua casa. Lá, a pena e o tinteiro esperavam por ele, talvez apenas pelas suas ideias. Não podendo fazê-lo, remexeu, no fundo da chávena, as ideias surgidas em turbilhão.
«– Que mulher lindíssima – comentava um homem selecto para um plebeu.
– Só para os olhos do senhor. Aquilo que ali vê tem tudo menos beleza.
– Não digas disparates, homem!
– Ela tem uma filha, mas não lhe liga nenhuma.
– Uma filha?! Tão jovem e já com uma filha?
– Não lhe liga nenhuma, estou-lhe a dizer. Não presta, essa mulher.
– Já chegaste à fala com ela?
– À fala e a outras coisas, senhor …
– Não te entendo.
– Está a fazer-se de desentendido, mas eu cá não me ralo.
– O que queres dizer é que aquela mulher é…?
– É para todo o serviço, mesmo o mais íntimo. Mostre-lhe uma moeda de ouro e vai ver como é verdade.
– Tu não tens tento na língua!
– Vende-se para viver, quer o quê?»
Os pires receberam as chávenas, pousadas numa pressa sem cuidado. O espanto esmagara a conversa e concentrara nos olhos de Jaime as atenções das quatro mulheres.
– Que diz, Jaime? A sua noiva vende-se para viver?!
– Jesus Senhor – lastimou-se uma beata.
– Eu não estava a falar da minha noiva, minhas senhoras, apenas imaginava uma conversa entre mim e u…
– Cale-se, Jaime! Não diga mais nada. O noivado acabou hoje! – gritou a futura sogra, saindo do seu papel em minutos. – Retire-se, Jaime. A Isabelinha não é digna de um homem capaz de dizer semelhante coisa!
Assim chegou, são mas perdido, ao seu tinteiro. Escreveu, entre aflições e remorsos, um valioso romance. Foi com a publicação de “Vendida para viver”, com o subtítulo “A mulher que não ligava nenhuma à filha”, que alcançou a fama.

Para além da fama, alcançou também o amor incondicional de Isabelinha. Esta, agora com filhos de outro conde, mas aos quais não ligava mesmo nada, derretia-se quando o via. Nunca foram amantes, a amante de Jaime era a fama.

Fragmentos Simples de Pessoas Complexas
Do livro de contos "Fragmentos" - Margarida Fonseca Santos